Minhas primeiras problematizações sobre o ensino institucional de música

Atualizado: 17 de out. de 2020

Com oito anos descobri que a monoculturalidade musical era uma forma de exclusão!


Ainda criança, com oito anos de idade, morando na cidade de Montes Claros, Minas Gerais, me interessei em estudar música, motivado pela vontade de aprender algo que, desde que me entendia por gente, estava na minha vida. O estímulo de ir em busca de um estudo sistemático de música se deu pela percepção de que a prática musical que eu almejava exigia, de alguma forma, conhecimentos e habilidades que não faziam parte do meu universo de domínio. Não demorou muito e fui surpreendido pela descoberta de que havia na cidade uma escola pública especializada no ensino de música, o Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernândez, e que havia a possibilidade de uma pessoa como eu, sem qualquer conhecimento sistemático sobre música até aquele momento, estudar nessa Instituição.

Essa descoberta iluminou o horizonte de uma criança que, por iniciativa própria, viu no Conservatório a possibilidade de realizar o sonho de aprender a tocar violão. Com o apoio de minha mãe, fui inscrito no processo de seleção do Conservatório no ano de 1983 e, em poucos dias, fiz o teste de aptidão para ingressar na escola. O resultado dessa seleção transformou rapidamente o sonho em um pesadelo, pois com oito anos de idade não só fui reprovado no processo seletivo e descobri que não poderia ingressar no Conservatório, como também fui informado que eu não demonstrava aptidão para estudar música, entre outros aspectos, por ser demasiadamente tímido.

Se isso era verdade naquele momento não sei dizer, mas o fato é que eu não acreditei que fosse. No ano seguinte fiz novamente a seleção e, desta vez, mesmo com a nota mínima, sete, fui aprovado! Ao ingressar no Conservatório pude viver experiências musicais que consolidaram importantes referências para o que me tornei ao longo da vida. Graças às muitas aprendizagens que se consolidaram da Instituição, nunca mais deixei de estudar música. Mas foram os entraves que marcaram aquela seleção em que fui reprovado que me levaram a construir as primeiras críticas aos processos formais de ensino de música e, acredito, plantei, ainda na infância, as primeiras buscas que me motivaram a, trinta e três anos depois, escrever este texto.

Na interculturalidade musical que eu vivia como criança a monocultura musical dominante no Conservatório não estava presente!

A questão que sempre me afligiu naquele processo foi: como uma criança que vivia rodeada de música e de experiências musicais pôde ser reprovada em um simples teste de aptidão de uma escola de música? Me fiz essa pergunta durante algum tempo e, depois de muito anos, tendo me formado no Conservatório e me tornado docente da Instituição por sete anos, lancei as primeiras reflexões sobre essa problemática. No amadurecimento da minha trajetória como músico e como professor de música pude perceber que, o ponto nevrálgico daquela experiência estava no fato de que as músicas da vida da criança que eu era eram muitas, mas as músicas do Conservatório não eram tantas assim. Na interculturalidade musical que eu vivia como criança a monocultura musical dominante no Conservatório não estava presente. Em qualquer contexto monocultural, o que não está vinculado à cultura que determina as regras, está excluído do processo. Eis um dilema que ainda hoje não vencemos na educação musical institucionalizada! .


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